Cajó

by Diogo Picão

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1.
Cajó 03:55
Cajó perdeu o emprego, perdeu a razão, perdeu o sossego, e o salário... 20 anos escriturário a cumprir o seu horário. E tu? Sabes o que é? Cinco vezes por semana às sete já estar de pé p'r'aquecer o teu café que te vai manter desperto e esperto p'r'aturares o teu patrão e seu matinal sermão Cajó anda cá já, Cajó anda cá já. Deslocalizámos o call center para o Brasil e na China é que é baril produzir. Se não me falha a memória são dois cêntimos à hora e o sindicato está fora da lei. E eu sou o rei da lei e eu sou o rei da lei e eu sou o rei Eu sou o rei da Leila esposa de Cajó, 6 euros à hora p'ra limpar o pó, sanitas, cozinhas... cozer pão de ló usar lixívia sem dó preparar umas empadas ler Maria nas horas vagas tirar o pato do forno e comer Pizza Buongiorno, com a criançada, comprada no hipermercado onde trabalhou no passado. Cajó anda cá já, Cajó anda cá já. Cajó eu sou o rei da lei eu sou o rei do Cajó eu sou o rei do hipermercado Só superexplorado no hipermercado. Só Superexplorado Nu Os meus impostos não os vês foram descontados ao revés Saltaram barreiras, cruzaram fronteiras Quem vai resistir à tentação desta minha nova promoção O povo come da minha mão Aspartame, corantes e sabão O ministro come do meu prato Sou eu quem paga a louça e o fato Sou eu quem paga sou eu Sou eu quem paga ao Cajó
2.
Se do pai macho nasce o filho gay Que esconde fundo o seu amor fora-da-lei Da mãe caseira, sem eira nem beira nasce o vagabundo Que como a poeira vagueia no mundo O irmão explosivo talha o pensativo Primo pobre envergonha a rica prima e seu perfume nobre Tia descobre a avó na batotice Tio encobre o caso com a Dona Alice A sogra sobe os degraus da demência O sogro joga o jogo da paciência Ciência da família Ciência da família Cedência na quezília Cedência na família Cedência na família Ciência da quezília De parte a parte se odeiam as noras Mas se necessário dão dois beijos sem demoras E os maridos respectivos com seus gémeos umbigos Fazem vista grossa e moucos os ouvidos Surdinamente diz que o neto anda na droga Diz até quem sabe que trocou a toga pelo Ioga O avô quer repor o rapaz na linha A avó com pena faz-lhe canja de galinha O bisavô e a bisavó já não existem Pendurados na parede com o olhar insistem Refrão E pouco a pouco as gerações se vão mutando O tempo é rei, ordena o caos e altera o bando Por cada um que a morte avança outro vai sair da pança P’ra chorar, amar e repartir a herança Nisso as diferenças são eternas cortam do futuro as pernas E os parentes viram homens das cavernas Mas há sempre quem ponha água na fervura E acalme os ânimos com jogo de cintura Que a eternidade é muito tempo p’ra uma guerra E todos querem paz na hora de descer à terra Refrão
3.
P'ra quê agarrar o vento se a previsão é vendaval P'ra quê viver o tormento e aceitar o que é banal P'ra quê dormir ao relento se a lua cheia já passou P'ra quê dar ao sol sustento se a queimadura não sarou Como os teus olhos há poucos Como o nosso amor há muitos São tantos que ficam loucos Com tantas conversas, tão poucos assuntos P'ra quê ser a folha seca se a Primavera vem aí P'ra quê ser o ser que peca e não pecar ao pé de ti Para quê lavrar a terra se erva daninha é bem mais forte Para quê escalar a serra se no topo há sempre a morte Musa clara da manhã Companheira ao meio-dia Peregrina pela noite dentro Melodia em que adormecia P'ra quê agarrar o vento se a previsão é vendaval
4.
Dá ao Dente 04:37
Dá ao dente alimenta o que te enriquece a mente, historietas de novela põe-te a tola demente. Se a bitola é falsidade pr’amansar o ego carente, põe na cartola tua verdade (pois) tudo falas, nada sentes. Mas se o amor faz parte da tua passada vais trinar e vais voar com o resto da passarada Não há pedaço de céu que escape à tua mirada, olhos sem ramelas vêm tudo onde não há nada. Dá ao dente, põe-te a milhas Firmemente aperta as quilhas Dor, sofrimento lamento Fazem de ti um jumento Põe-te a milhas dessa raiva que por dentro te consome, abandona-a num baldio e deixa-a morrer de fome, de frio, de sede e doença grave rara e sem nome, que as entranhas putrefactas, vis e fedorentas come. Reanima o morto com um tiro de perdão, mostra ao vivo como bate no esterno o coração, que a interna luta é um caminho p'rá resolução mas que nem todas as conclusões vêm da razão. Firmemente aperta as quilhas p'ra o balanço não falhar, finca os olhos nessas ilhas onde o teu ser vai medrar, com o sol e com a chuva, com o vento e com o mar, e quando a pele estiver curtida há conquilhas para o jantar É conta certa que o previsto não vai ser e que a expectativa alta inverte o acontecer. No salgado da viagem inventa o doce prazer, se te encontrares com o abismo diz que é cedo p'ra morrer. Dor, sofrimento e lamento são três faces da moeda, um retrai, o outro rasga e o último embebeda. O primeiro não se evita, o segundo a boca azeda e o terceiro p'ra piorar a situação é tiro e queda. Mas tudo muda quando a mona se organiza e a testa em vez de fender enrugada fica lisa. Na inspiração profunda a labareda vira cinza e não há questão que não sucumba à mais leve brisa. Refrão Fazem de ti um jumento sempre que desesperas e tropeças nas vivências mais cruéis e mais severas: a tortura, a prisão, os vírus ou as bactérias, o que faça acreditar que são falsas tuas quimeras. Não quero cair na falácia e mentir afirmando: “para ser feliz basta decidir”. Cada um é o caso que o acaso permitir e se a fome aperta vais-me ouvir ao longe a ganir. Refrão

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"No princípio era o verbo e nos primórdios era a música"

Desde cedo a cantar e a batucar nas mesas da escola, Diogo Picão, eu, deus do meu quarto e crente nas praias desertas do oeste português no pôr-do-sol de Abril, era chamado à atenção para não perturbar a aula e parar de balançar a cadeira. Quando finalmente me dei por vencido e aceitei que aquela escola era o lugar do verbo fui aprender música noutras escolas. O saxofone foi o aliado escolhido.

Passaram-se vários anos nos quais fui misturando Sérgio Godinho com Stan Getz na cabeça, José Afonso com Miles Davis no corpo, Chico Buarque com Hariprasad Chaurasia no coração.
Com mais dúvidas e vários diplomas na mão (Licenciatura em Música na ESMAE, Mestrado em Faz-te à vida na Universidade dos Recibos Verdes, Doutoramento em Vadiagem no Instituto dos Blocos de Carnaval de 2015 do Rio de Janeiro) comecei a destilar as influências e as canções brotaram.

Juntei um finlandês (Anders Perander) com os dedos virados para o Brasil para tocar guitarra e orientar as tecnologias de gravação, raptei um alemão (Matteo Bowinkelmann) com as ancas sentadas em Cuba para percutir e gritar "azucar!".
Quando o pão já estava amassado, agradeci a um indivíduo de nacionalidade duvidosa (José Serrano ) pela composição em parceria de uma música e fui chatear um açoreano parvo (Paulo Machado) para misturar gostosamente o produto final.
E vai lá!

Aqui fica para ouvir, (des)gostar, partilhar, downloadar de graça ou a pagar.

Bem-haja

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released January 5, 2016

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Diogo Picão Lisbon, Portugal

Nascido no oeste, apaixonado pelo sul, com a cabeça virada a norte.
A leste mas orientado pela música.
Canta, toca saxofone, e percute o que lhe aparecer à frente.
Chama-se Diogo Picão e gosta da canção mas nunca se nega a uma livre improvisação.
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